|
08:56
Discurso de Corey Davenport, na missa de 7º dia das vítimas do Novo México
Quando eu era pequena, uns seis anos, eu tinha um cachorro chamado Gus. Ganhei do meu pai. Aniversário de quatro anos. Era um Labrador lindo! Pêlos amarelos, feliz, bobão, companheiro – meu fiel companheiro. A gente sempre brincava de apostar corrida. Numa dessas brincadeiras, eu estava ganhando. Ele nunca me deixava ganhar. E, depois de eu atravessar a rua de casa, venci a aposta: cheguei do outro lado. Mas ele não. Um carro atropelou meu Gus. Eu não vi. Apenas ouvi o barulho e, depois, o ganido. Meu coração apertou e eu sabia que algo de mal tinha acontecido. Eu fiz companhia para ele enquanto ele dava seus últimos suspiros. Lambeu minha mão e eu disse que ia ficar tudo bem. Que eu ia salvá-lo e ele ia ficar bem. Que, apesar de ter sido brutalmente atingido pelo automóvel, ele ia ficar bem. Que mesmo com todas as suas costelas quebradas, ele ia, sim, ficar bem. Seu lindo pêlo não estava mais amarelo. E foi no meio da rua que ele parou de lamber a minha mão. Nunca mais brinquei de apostar corrida com o meu Gus. Nunca mais burlei aqueles horríveis aspargos de minha mãe, dando eles à Gus – ele adorava! Não tinha mais meu fiel companheiro. Era meu cúmplice. Era meu melhor amigo. E eu não pude fazer nada para salvá-lo. Meus caros: nós retornamos. Voltamos apesar de que muitos de nossos colegas não irão mais voltar à Rivendail. Não irão ao Baile de Primavera. Não irão à Bariloche ou mais freqüentarão o Link’s. Muitos de nossos colegas não estarão conosco quando recebermos o diploma. Não estarão ao nosso lado quando, em nossa formatura, recitaremos o juramento de Hipócrates. Não jurarão solenemente suas vidas a serviço da Humanidade. Não precisarão jurar o que já aconteceu. Muitos de nossos colegas, amigos, companheiros, irmãos, partiram para sempre. Futuros médicos cujas vidas foram brutalmente arrancadas. Jovens médicos cujas vidas foram desnecessariamente tiradas sem aviso ou vacilo. É na hora da perda, do aperto, do desespero que a coragem e a garra nos dão firmeza para lutar. Mais que isso, é nesta hora que cinco, dez, quinhentos, viram um só: uma única força. A vida é a mais cruel professora: dá o teste primeiro e a lição depois. E eis a última e valiosa lição que nossos queridos amigos nos ensinaram: a união. Mais do que isso, estes queridos amigos nos ensinaram o quanto a Vida é valiosa. O quanto é frágil diante de vossos olhos. Eu não queria morrer porque eu ainda não dei todo o carinho e a atenção que meu filho merece; quero vê-lo crescer. Porque eu não tinha dito para meu namorado o quanto eu o amo. Porque eu não agradeci aos meus pais por tudo o que eles doam por mim. Porque eu não tive coragem de antes dizer aos meus amigos o quanto são essenciais para mim. Além disso, porque eu tenho uma vida toda pela frente. Entretanto, não apenas eu, todos nós, tivemos uma segunda chance. Sobrevivemos. Voltamos. Nossos amigos não tiveram a mesma sorte, mas tenho absoluta certeza que, onde quer que estejam, ficarão vivos nas mais belas lembranças. Nas risadas que demos juntos, nas piadas, nas festas, nos estudos. Vivos aqui, em nosso coração e nossa memória. Gus, meu companheiro fiel, meu melhor amigo, morreu. Sim, em meus braços. Eu nada pude fazer para salvá-lo. Não. Sua vida escapou de minhas mãos como areia que escorrega entre os dedos. Eu não consegui cumprir a promessa: ele não ficou bem. Eu falhei. Mas talvez eu tenha feito por ele mais do que possa imaginar: dei-lhe conforto e carinho quando tudo o que ele tinha era dor e escuridão. Artemis Siopakós, Arthur Monaghan, Oliver Clumsy, Pablo Castillo, Sarah Eberhard: amados filhos, alunos, futuros doutores, amigos, colegas. Abandonaram-nos levando com eles um pedacinho de cada um de nós. Deixando este buraco carecer. Um buraco que aos poucos vai cicatrizar – tenha toda certeza. A estes queridos amigos que partiram, fica a mais sincera homenagem, a mais bela lembrança, a mais dolorosa saudade. E nós? Seguimos em frente. Levantaremos nossas cabeças com orgulho. Choraremos a perda, sentiremos falta, mas celebraremos a nossa vida e a nossa volta. Consagraremos nossa vida a serviço da Humanidade, como Médicos que iremos vir a ser. E, enfim, guardaremos estas cicatrizes para sempre. Sim. Guardaremos estas cicatrizes em respeito aos nossos queridos amigos que se foram e como uma ode à vida e a tudo o que temos de mais valioso. Aos pais, professores, colegas, amigos: meus mais sinceros e dolorosos pêsames. Aos colegas que partiram: descansem em paz; e obrigada por tudo.
-- Corey Davenport
Dr. P. Slaviero - Reitor
0 :...Save Yourself...:
|